quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

da história dos três nascimentos

é mil novecentos e oitenta e seis,
pela primeira vez, nasço.
pelos olhos da madrugada eu vejo mundo.
no escuro, eu sou o som que grita,
eu sou as dores do parto,
eu sou o luto.

é mil novecentos e noventa e quatro,
no quarto, minha mãe amamenta um anjo.
ele me olha com seus olhos de sono
e, lembrando o poeta, avisa:
nosso tempo é quando.

o ano é dois mil e sete
(os milagres às vezes se reinventam
ou se repetem)
eu vejo histórias que se calam,
ais que amansam em sorrisos.
no seio da vertigem, um mundo em paz.
mais, é o que somos às portas do abismo.

cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

                         yang


que é o tempo senão aquela criança
que enquanto a gente dorme,
dança?





 
 
 
 
 
 
cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

ao poeta, sua sina (2)

 
na noite da cidade uma luz se destaca.
desliza solitária no véu noturno,
                                              
                                                 feito peixe sem cardume.

lince à paisana sob a lua,
olho de hórus.

pela lente do fotógrafo,
os olhos do mundo.

'os homens são como árvores que andam',
ele diz.

                                                 'como árvores que andam'
e é preciso sempre mostrar-lhes o caminho,
revelar os sinais nas coisas,
                                             nos passos,
                                                         nos gestos.

os sinais em si,
que os sinais estão em nós.



cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

ao poeta, sua sina

dorme o poeta sob o véu da noite.
lá fora, os cães
vigiam a propriedade.
repousam as senhoras,
a mobília
           e o tédio.
um gato rasga a rua
e mia.
não o poeta.
do interior da cidade,
ele costura outra vida
de sonho.
os versos que pela manhã
acordarão as crianças.


cara de fernando diegues
palavra  victor valente

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010


a mulher da noite

onde andará a mulher da noite?
a mulher dos lábios de shiva
e dos seios de eva.
ela que me arrancou a calma,
que, fecunda, lançou-me aos rios do
paraíso e foi embora.
deve estar agora a saciar-se
em outros homens,
novos, velhos e perdidos.
estar a provocar-lhes
os risos que em mim provocava.
bruxa!
em que quartos sem mobília
eriça os teus cabelos,
os pêlos do teu corpo?

olhos e ouvidos de gato à tua procura.



cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

a dúvida

de quantos precipícios se faz um
suicida,
desses que vemos todos os dias por aí?

a moça preparara tudo meticulosamente,

da corda,
     ao banco
ao abismo

- mania de perfeição,
disse a tia.

feitos todos os cálculos,
olhos abertos,
saltou.

segundo o padre, para baixo.

(o inferno é a tua casa, menina,
só a Deus é permitido o assassinato)

segundo a rima, para cima.



cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

a flauta mágica

em qualquer fragmento de rima
canta, contente, uma menina.

e ela sabe que
por mais fodido que a gente esteja,
é sempre possível
(ou seria necessário?)
transbordar um sentimentozinho besta.

e por isso insiste.

apesar da guerra,
do aluguel,
da vida que caminha assim
tão triste.

na rua baça
uma menina canta.
sabedora dos olhos de fome,
semeia abraços pela noite.
põe os pobres pra dormir.
Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

eu e ela

eu e ela
vivemos a inventar defeitos
e de gostar muito dos defeitos que inventamos
e isso não importa.

eu e ela rimos muito.
e silenciamos.
e aproveitamos mais os silêncios
que lembramos do riso.
e o riso é belo,
e o silêncio é denso,
e isso não importa.

eu e ela comemos tanto,
e bebemos mais.
e comemos e bebemos
pensando nas vezes em que não estávamos juntos
a comer e beber.
e lembramos do que não vimos.
e planejamos o que não temos.
e temos medo.
e o medo já não importa.

somos dois pela noite,
cegos no escuro
apalpando os muros até tocar os dedos.
 

Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

ser
          pen
te
           pro
fa
           na
ria
          can
tan
          do
to
           ca
to
          do
tan
          to
ria
          do
fa
          lar
te
           nta
ser




Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

encontro marcado

pinto quadros sobre a pele.
marco meu corpo com a marca dos proprietários,
feito gado.

(pertenço ao que sinto)

retrato em mim pedaços de dentro,
o som das coisas quando me anoitece.
corto a carne como quem corta o silêncio.




Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

quinta-feira, 25 de novembro de 2010


o receptivo

abrir as portas da alma
feito uma criança a desvendar presentes.
feito um louco a memorar mistérios.

marcas da memória...

um velho à praça,
é o que sou.
absorto em tudo que passa.


Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

segunda-feira, 22 de novembro de 2010


comum de dois

 
deixa-me morrer na tua cor
vermelho enigma.
deixa-me gozar dos teus andrógenos
mistérios,
provar dos teus venenos.

fêmea prudente e forte das ambulâncias,
moça discreta das salas de cinema.

varão cor de bandeira, sangue e dúvida,
vida e morte em olhos de malícia.

eu imploro.

mostra-te, coração,
inteiramente nua.
batendo no meio da rua,
gritando desvairada de desejo.


Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

quinta-feira, 18 de novembro de 2010


três de setembro

coisas de minha mãe.
esse desprezo pelas datas,
pelos dias sem trabalho.
é dela, esse afeto em reclamar da vida.
de tudo que a vida dá.
é de minha mãe essa felicidade nos gestos.
esse gosto em falar demais, demais…
esse prolongamento das festas.

é meu e dela,
ambos grávidos de perdão.
grávidos do amor que demonstramos em silêncios
perceptíveis ao olho nu.

é teu, mulher,
gestando,
em nove meses, o segundo passo.
que a vida é um prolongamento.
toda ela,
uma estrada que deságua
e dói.

Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

metalinguístico
bebo o teu sobejo e beijo a boca.
mais de mim, a sós, nós dois.
sóis derramando alegria.
devagar? nem sempre.



cara de fernando diegues
palavra de victor valente

sábado, 13 de novembro de 2010

E=mc²

O tema da transformação é recorrente em nosso trabalho. Essa mutabilidade das coisas encontra-se, mais ou menos evidente, em cada uma de nossas postagens e, acima disso, nas relações de sentido que propomos entre as composições. Mas nada que se compare ao exercício desta primeira série.

O que tentamos aqui foi estabelecer um percurso que se clareasse enquanto percorrido e que ao mesmo tempo, a partir do novo, propusesse releituras do que já fora visitado. Dessa forma, caras e palavras brincam com o focado e o desfocado, aguçando o olhar para o periférico, o escuso. Impressões iniciais vão sendo reforçadas e reescritas numa mesma dança.

Elementos que nos sugiram o passo estão aos montes: o fogo, elemento modificador por excelência, aquele que molda o vidro, funde o ferro, mas que renega à história os livros da Biblioteca de Alexandria - fazedor e aniquilador de coisas; a madeira esculpida num rosto de Cristo como elemento tranformado pelo homem - note que as formas velha e nova comungam, num possível esforço de revelar justamente um processo. Mesmo a bíblia em contraste com esse Cristo aponta estradas de ida e volta.

Assim, temos na primeira composição o rosto triste de um Jesus morto sendo traduzido em canto fúnebre - quantas vezes nos deixamos morrer ao longo da vida?, quantas vezes, mortos, nos permitimos a reinvenção de um Pentecostes?, nos pergunta a imagem desolada.

A segunda composição, talvez a mais desafiadora, evidencia a proposta de mudança: as folhas consumidas pela chama revelam-se em cinza. Entretanto, não há aqui o tom melancólico inicial, o poema nos coloca versos delicados, em que as lagartas do passado, futuras borboletas, ensinam mais que o "um tempo para cada coisa" do livro do Eclesiástico: talvez o sabor da vida seja mesmo reaprender, sempre, a viver - ensinam mais porque partem daquilo que foi, efetivamente, experimentado e é preciso, para isso, como as folhas, lançar-se ao fogo.

Quando seríamos, finalmente, colocados diante de um possível desfecho, volta-se novamente, ao princípio. O poema é uma clara alusão ao Caronte grego, o barqueiro que, depois de devidamente pago, leva os mortos a seu destino. Só que aqui o contexto de morte é reescrito. O que se propõe, na verdade, é uma releitura do que foi experienciado, não como repetição ou aprisionamento - não se olha duas vezes o mesmo rio, por nós e pelo rio, é sempre bom lembrar -, mas como busca daquilo que, em nós, nos leva.
Vale perceber que todos os elementos até então relevantes estão contemplados pela imagem, agora, é claro, assumindo nova forma.
Não foi, enfim, o caso de configurar leituras religiosas através de bíblias, Cristos e Pentecostes, mas de, através desses elementos - porque são eles muito vivos para os autores, cada um a seu modo - , aguçar os sentidos para novos rumos e sabores, todos, ironicamente, já tão nossos.


Um beijo,


fernando diegues

victor valente









quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E=mc² - parte final


intermitente

 
para voar por sobre os campos férteis
do juízo,
para despir-me,
descosturar-me a cara e o avesso
eu preciso, antes de tudo,
navegar.

e perder-me em mar revolto.
e amparar-me em vento calmo.

eu preciso (sim, preciso!) de um barco.
um barco que me leve ao início,
ao princípio daquilo que me leva.


Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

E=mc² - parte 2

um momento, por favor


quando pequeno, colecionava lagartas.

era tão bonito vê-las em seu
lento raciocínio,
a vida seguindo à beira do pote...

- pouco a pouco parava, também, o tempo em mim,
como se nos irmanássemos em preguiçosa espera.

colecionar lagartas deixou marcas
tão prementes em minha memória
que nem o livro do eclesiastes,
anos depois, conseguiria.



Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

E=mc² - parte 1

réquiem


levo mortes demais comigo.

assassinado à rua,
aos olhos do imbecis,
nada fiz.

vi meu corpo derramado
em teatros e repartições,
em praças e passeios públicos.

velei meu sangue pelos muros,
bares e igrejas,
à revelia dos padres
e dos bêbados.

morto.
tantas vezes desperdiçado
o pranto,
a voz emudecida
em gritos de demência,
sem resmungos de prece
ou busto em avenidas.

o que deixei de mim,
mais, talvez, que a lembrança de um
sorriso?

aos desvalidos,
aos desajeitados,
às putas de estrada
guardo esse sorriso amarelo,
feito línguas de fogo em pentecostes.


cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

da sabedoria humana


certa vez, os três irmãos à sala,
conversávamos.

o riso, o abraço,
a festa.

falávamos,
sempre e tanto e muito.
sem assunto ou motivo
senão a fática necessidade da voz alheia.

falávamos
como se o mundo não inventasse outros prazeres.

sabes isto, ju?
eu sei, disse ela, eu sei.

qual o quê.
ao chão das coisas,
o intervalo de gente sentencia:

eu sabo, bubu,
eu sabo.
e sai,
caminhando a saber de tudo.


cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

o mito em mim


os dias em que me nego à poesia
são dias de silêncio inválido,
de condenação consentida.

(leva, criança, a pedra
monte acima.
leva às costas o peso da tua humana
inutilidade)

pois nos dias em que me nego à poesia
eu sou esta criança.
nos dias em que me nego à poesia
eu sou a pedra.




Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

uma mulher

amo uma mulher com olhos de sal.
uma mulher que se assanha em saber que a amo.
ciente do meu espreitar noturno,
do meu perder-se em tantos olhos.

amo uma mulher com olhos de praia.
que amansa quando a maré abaixa,
mas que inunda quando canta pra lua.




Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

yin

 

lançar-se ao abismo
feito um rio,
reflito.
viver,
no fim,
é mais que isso?


Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente


 

segunda-feira, 18 de outubro de 2010


à tarde, no horto

dá-me um sinal da tua existência,
da tua infinita bondade,
abba, abba...

o filho do homem percorre os caminhos da
miséria.
consigo, já nem pensa na mulher,
nos filhos que entregou ao mundo.

é preciso parar jamais, argumenta.
é preciso não sofrer,
que o sofrimento é o algoz de tudo.

mesmo que digam não,
que o corpo peça,
que a alma exija.

cruz às costas,
sua única exceção.


Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

o homem no quarto (2)

daqui,
deste canto inóspito do espaço,
vejo o mar.

aqui, ponto privilegiado
da tormenta.

do alto, eu sei, assim de longe,
o acaso resplandece tão bonito.

olha-me também a praia
em sua calma,
em paciente espera.

o homem que passa,
um cão,
moças beijando o silêncio.

a cidade, enfim, desperta, inteira.
não eu.
meu lugar é onde habita a memória.



Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

a uma passante

a rua tem seus próprios caminhos
e eles bem sabem aonde levam.
a mim, levaram aos olhos da passante.

tens nome certidão endereço?

coisas que nos exigimos!
que são os nomes?
que é o tempo?

ela passa e deixa o gosto morno dos gestos não vividos.
uma pena.

que há algo sem nome entre esses estranhos
que se passam,
um segredo que atravessa a coluna
e vai embora.

coisas que aprendi.
só se desconhece verdadeiramente à primeira vista,
e é preciso ter pressa, sempre.



Cara de Fernando Diegues
Palavra de Victor Valente

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

licença poética

a folha em branco passeia nua pelo horizonte.
namora a lua.

a linha, pleonasticamente fina, suspira:
presa entre duas margens, liberta-se sonhando-se rio.
e ri.

comigo, rabisco-lhes mentalmente o corpo,
desenho carinhos pela noite.

em tempo, reconsidero.

o sono que escreva seus próprios poemas.




cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

bangalô

são palavras daquela boca,
essas de encantar os homens.

os que ouvem as tuas histórias
aprofundam-se em correntezas fecundas,
engravidando os ouvidos de encantamento.

nos braços de Seu Francisco
corre o sonho dos viajantes:

ouro mulher abraços

e cais.

os caminhos de Francisco bem sabem aonde levam,
onde alcançam.
um mundo feito de tudo aquilo que vemos
e mais nada.



cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

intimidade

a verdade é que tudo vem
como se nunca houvesse partida.
nosso gosto por besteiras,
a mesa farta.
só os olhos medindo distâncias.
em nossos encontros o tempo dorme
e a vida passa a correr em medidas familiares.
o amor habita a casa
e a casa cresce,
abarca o mundo.
vai ver, saudade vale a pena.


cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

          pra dizer bom dia


eu andava à procura de uma rota qualquer
que mostrasse as minhas coisas,
meu jeito de andar cansado e triste.
buscava um mal de estranheza
que me tocasse a boca e a espera.
que me levasse ao canto escuro
das pessoas que não vivi,
à casa daquelas que em mim não viveram.
eu andava à procura dos enfeites sem exagero,
das tintas borradas de maquiagem sobre a cara.
aos gritos, caçava restos feito bicho.
rostos feito máquina.
o gosto de guardado da memória.
eu andava à procura de uma ausência em mim
que, minha, nunca me fez companhia.
não me abraçou a calma, não me beijou à cama.
eu andei a vida à procura daquilo que nunca veio.

não quis, nem pôde.                                   
cara de fernando diegues
                                                                     palavra de victor valente
                                                                                       
                                                                                                                                                atriz Célia Faustino em
                                                                                                                                                "Exílios - cartas ao vento".


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

o homem no quarto

quem bate a porta da saudade?

do carmo

das dores

do silêncio

o homem no quarto implora
um amor antigo.
em sigilo, bebe a história que perdeu.

afeita a barba e segue, outra vez,
o sempre passo:

navalha à pele.
corta-se, assim, a solidão.

cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

odisseu

nesse lugar onde a terra não bate
atraquei-me assim,
sem perceber.

aqui,
onde a prisão é o azul.
- o azul, não vê?.

em mim,
o eterno navegar
sem ilhas ao fim.

eu, que sou esposa e renda.
eu. que busco a sereia
que me enlouqueça.

canta-me, a mim, os teus gemidos,
ando cansado de ser rei!



cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 16 de setembro de 2010


retiros espirituais



de quantos guardados é feita a memória?
de quanta espera?


esses lugares do passado
chegam em lembranças de silêncio
e saudade.


aportam o cais do tempo
e dormem.



cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

enluarado


na conta dos terços escapa um dedo:
foi-se embora a ave maria,
virou silêncio.

tanto melhor.
é que me agradam esses silêncios
e os seus espaços.

os intervalos do relógio na parede,
as madrugadas de terça,
a caneta que vacila...
e esquece.

o breu dos olhos é a testemunha solitária
de que a vida falada não convence.
eu e você,
meu quarto escuro
e essa moleza...
amor é isso.
amém.

cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

dança da chuva


quando vier, não seja breve.

arromba as portas uma a uma em desatino:

roda os teus moinhos em mim.
cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

os olhos do metrô

                                                       os olhos do metrô
avisam que a vida segue
e que nada há de frear
a ordem inevitável de viver

os olhos do metrô.
debaixo dos bancos,
nas bolsas das senhoras,
nas escadas.

é noite
e a cidade já não dorme
porque já não há mais noite,
apenas dois faróis
a preencher de luz o mal do mundo.
ordenando os homens.
catequizando-os por dentro.
numa única e indizível felicidade.

pois no princípio o homem quis a luz,
e, para o homem, a luz foi feita.

cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 2 de setembro de 2010


íntimos

insisto em pensar
que há homens e mulheres por mim nunca vistos
que tanto me conhecem,
que compartilham comigo um jeito de ser sozinho.

íntimos ao avesso,
correm noutras margens
e versam outros versos.

mas sei: quando canto,
e um cheiro salgado me nasce à pele,
são esses que estão comigo,
me olhando calmo e fundo.

esses que nunca hei de falar o nome,
mas que hei de acompanhar a vida inteira.


cara de fernando diegues
palavra de victor valente
Itálico

segunda-feira, 30 de agosto de 2010








sono

o silêncio, enfim,

cantou para mim

sua sonata.



cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 26 de agosto de 2010



a noite em mim


ouve os sons da noite,
os sons que adormecem a aurora.

casas desenhando histórias,
feito nuvens,
inventam a imaginação das crianças.

fosse sempre tanta calma
a pressa, só, fugia,
tímida.

agora
nada move o mundo
e o mundo pára.







cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

do direito de resposta

eu queria amar os dias de silêncio e dúvida
que regaram o nosso sonho.
queria amar as noites acesas de afeto, vertendo vida.
eu quis amar os edifícios construídos sobre a alma,
as paisagens conhecidas do desejo e nunca vistas
quis te dar os rastros indizíveis das palavras,
seus os motivos, e essa necessidade desesperada de que eles existam.
eu quis que fosse calmo, tenro e sólido.
que fosse amor ou qualquer coisa parecida.



cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 19 de agosto de 2010


ritos de partida


que segredos contam esses ventos matinais
que me vestem de noiva e amante.
em que língua pronunciam seus sussuros,
seus gemidos.

decifra-me,
e ele me invade.
despudoradamente
se anuncia.
somos, agora, eu e o vento.
pertenço a ele.
e ele me leva.

cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

o cântico dos cânticos                                                          


lembro da vez em que vi os olhos dela,   
olhos de atriz.
de quem vive o prazer de enganar.

foi tanto mar,
eu sei,
me perdi.

com os pés a pisar em nuvens,
eu vi o amor sorrindo.

um anjo à beira do abismo
a esnobar da gravidade.

cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 12 de agosto de 2010


nonna


quero-me amparado no teu corforto
e, em ti, lembrar dum cheiro de flor
de outrora.
seguro no teu abraço, olharei a cidade
e não sentirei medo,
pois o medo habitará as casas
e eu, enfim, habitarei o teu orvalho.

serei livre.
serás plena.

dormirei em tuas raízes
e a manhã virá sorrindo.

e eu, ao pé do dia,
te cantarei os versos mais velhos e bonitos.
versos velhos e bonitos...
feito os fios dos teus cabelos.


cara de fernando diegues
palavra de victor valente

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

da criação


Deus - é o que dizem -
construiu o mundo em seis dias.

separou a luz das trevas
e semeou os seres e as coisas.

ao fim e vendo que tudo era bom,
deu-se o merecido descanso.

no entanto, ao homem
- porque a fé é mesmo feita de mistérios-
coube a tarefa de nomear a obra divina.

e ele assim o fez.
o faz.

ó homem, ó mulher!
lembra-te sempre das tuas histórias.
que em cada uma delas
há um tanto da tua verdade.

cara de fernando diegues
palavra de victor valente

quinta-feira, 5 de agosto de 2010



matinal


da minha janela duas cores se percebem.
íntimas, esfregam sobre o dia
os corpos derramados de beleza.
lasciva, a madrugada vai deitando sobre a areia
e dorme.
o meu humor oscila,
vacila,
preguiça.
faz espuma pela beira.
como a cebola, me dou em camadas.



cara de fernando diegues
palavra de victor valente